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Notívagos: quem prefere a noite

Sou das corujas, daqueles que se sentem mais inspirados, animados e felizes depois que o Sol se põe, cruzando a madrugada como uma estrada, não uma escalada intensa — como é a parte diurna do dia. Infelizmente a sociedade obriga pessoas como nós, de natureza biológica diferente, a levantar de dia e adormecer com as estrelas. Por que ser noturno é tão bom?

Sinceramente, vai de pessoa pra pessoa, claro, mas pela curiosidade humana temos uma analogia com a presença das sombras, a Lua, o mistério. A noite é quando o mundo esfria e as máscaras são guardadas em casa. É quando as ruas estão desertas e as casas em silêncio. Os gatos saem pra brincar, os cães uivam para lobos em outros continentes e nós, notívagos, pregamos as pálpebras nas testas e nos colocamos pra mexer, porque é só quando tá escuro que temos 100% de nossa energia. 

Sob a luz lunar, podemos mover montanhas! Pelo menos sinto que posso limpar a casa, o bairro… sem falar em meus textos, que saem com o dobro de inspiração, charmosos. Falando em charme, por que vocês acham que as baladas acontecem mais à noite? Porque todo mundo fica bonito à meia-luz. Poucas pessoas têm medo de se produzir como acontece de dia. “Será que esse batom não vai ficar feio se eu chegar de manhã no trabalho?” não existe. Existe o “vou de jaqueta jeans, botas de combate e não terá vampiro que não me olhe”.
O homem é uma das criaturas que se deixa paralisar por temores não questionados. Nossa sociedade se formou sobre o pavor da noite, dos monstros, das bruxas e mentiras criadas para nos manter sob controle, sob regras. Milênios depois, ainda somos obrigados a sorrir para as zilhões de rajadas fatais de raios ultra-violetas e chorar por colo quando nosso satélite, tão humilde, se permite enxergar, ao contrário de seu parceiro, sempre ofuscante, sempre impossível de encarar.
Não importa qual horário acordemos, sempre esticaremos algumas horas para dentro da obscuridade. Sempre iremos olhar para o relógio às quatro da manhã pra pensar que ainda tá cedo, que há muito a ser feito antes da alvorada. Mesmo que seja só assistir um monte de séries e comer besteira. Porque até a comida fica mais gostosa de madrugada, nos assaltos descarados que fazemos contra a geladeira.

É pelo poder dessa parte do dia que mais me identifico. Sou filho das trevas, garoto que acorda quando todo mundo dorme, que dança A-Punk de cueca na frente do espelho depois do banho às três da manhã, que come três cachorros-quentes antes de, finalmente, deitar pra tentar dormir.
E mesmo que a rotina me obrigue a mudar o horário de meu corpo, sempre terá algo depois das seis esperando por mim. Se sou vampiro enrustido, não sei. Só sei que é assim.

Fotografia e Skate

Quando tinha 13 aninhos, comprei meu primeiro e único skate. Gastei uma fortuna! Comprei mochila pra ele, equipamentos de segurança, tudo de mais incrível pra saciar meu amor por aquele bicho. Depois de cair a primeira vez, desisti, deixei de lado, e minha mãe nunca me permitiu esquecer: “gastei uma grana e você só andou uma vez!” A paixão adormecida acordou de novo.
Vou comprar um skate. Sempre tive vontade de tentar de novo, mas como essa ladainha de depender do dinheiro da mãe é foda, fiquei sem coragem de pedir. Mas juntei um money e desse mês não passa. Porque agora não tenho medo de cair, de arriscar uma manobra! E moro cercado por praias, poxa! Mesmo que eu não queira radicalizar, final da tarde em um domingo deslizando pelo asfalto só vai fazer bem!

Foi depois de assistir ao filme Chasing Mavericks (vou falar dele nessa sexta) e ler o post da Ana Farias sobre crise de meia-idade aos 21 que percebi: tô perdendo tempo! Não estou velho pra aprender a andar de skate! Não tô velho pra me limitar e deixar de fazer as coisas que gosto, que quero, que preciso. No momento, preciso de uma bicicleta, um skate, vento na cara e minhas praias!

Preciso aproveitar o que tenho, aproveitar um esporte saudável, conhecer gente nova. Tirar mais fotos! Quero arrastar meus amigos comigo, perder a vergonha de parecer noob na frente dos outros, a vergonha de tombar, rir e usar capacete!

Li em algum lugar que pra andar de skate tem que ser moleque (ou moleca), independente da idade. Concordo. E também concordo que independente da “modinha” estar voltando, preciso fazer o que eu quero fazer. Não tô matando ninguém mesmo…
Só minha mãe. Do coração.

E o vídeo dessa semana, que eu deveria ter feito um post ontem, fala sobre a mania que a gente tem de dizer que vai dormir, mas que não consegue largar do Facebook ou computador. A gente prefere cair de cara no teclado do que deitar na cama. Coisa de doente, né? Assiste aí!

Andar de skate depois dos 20, 2: Como andar de skate?

Você aprendeu a comprar o skate certo no outro post. Com ele em mãos, é hora de coloca-lo nos pés. Vou explicar nessa parte do guia o que é base, a forma correta de ficar em cima do shape e quais os melhores tipos de asfalto pra treinar seu equilíbrio, sua remada (impulso) e suas curvas. Cair faz parte, então sem medo! Vem!

QUAL É SUA BASE SOBRE O SKATE?
Base é a forma com que você pisa sobre o skate, que vai definir qual pé vai ficar na parte da frente do shape, na altura do par de parafusos mais perto de você e qual vai ficar atrás, na curvinha da ponta traseira (a tail) pegando impulso, manobrando curvas e freadas mais bruscas. Por isso, suba no skate (não faça dentro de casa), coloque seu pé direito na frente e pegue impulso com o esquerdo. Depois troque de pés e faça a mesma coisa. Com qual posição você se sentiu mais confortável?

Se foi com o pé direito na frente e o esquerdo atrás, você é goofy, como mostra a imagem aí em cima (sou goofy também). Se foi com a esquerda na frente e direta atrás, você é regular. Se ficou confortável das duas maneiras, meus parabéns, você é switch. Qual o certo? Aquela posição em que se sentir mais confortável. Não tem regra.
Vale ressaltar que no começo não será muito importante, mas se você pretende manobrar depois, todo mundo recomenda que você treine com as duas posições até se acostumar, já que algumas manobras pedem a inversão dos pés. E convenhamos que é muito mais divertido ser switch do que um ou outro.

COMO FAZER CURVAS COM SKATE?
Sabendo sua base e dando os primeiros impulsos, você tá mantendo o equilíbrio. No começo eu só conseguia fazer linhas tortas, nunca conseguia andar em linha reta. Fiquei a noite toda tentando, mas não saía de jeito nenhum. Voltei pra casa cansado e, na semana seguinte, consegui fazer uma linha reta inteirinha no asfalto da orla de primeira. Depois de dominar minha linha reta, fui aprender as curvas. Tenha paciência, seja insistente, mas saiba quando descansar. 
A curva simples, pra desviar de um objeto distante ou para mudar de uma mão para outra na pista, é questão de apoio da ponta dos pés e calcanhares nas extremidades laterais do skate, flexionando os joelhos. Se quer virar para a direita, deposite um pouco do seu peso nos pés para a direita. Se para a esquerda, faça o movimento para a esquerda. Se o truck estiver bem colocado, vai sentir que o skate “afundou” para o lado que você quis e as rodinhas do lado que recebeu a força dobram pra dentro um bocado. 

Para curvas mais bruscas e freadas, a força é jogada para o pé de trás, sobre a tail, relaxando o pé da frente (sem tira-lo da lixa) para levantar as rodas frontais e direcionar as traseiras para o outro lado com um movimento de impulso do quadril, colocando as rodas frontais no chão rapidamente com o pé da frente de novo. É um pouco mais complicado, prometo aprofundar o assunto no futuro. O Youtube tem um monte de exemplos:

POSTURA SOBRE O SKATE
Tente se manter ereto com os cotovelos flexionados e, quando necessário dar impulso, dobre os joelhos um pouquinho. Seu pé precisa ficar com a ponta e os calcanhares sobre as extremidades laterais do shape para que você consiga fazer a curva da maneira correta (olhe a imagem sobre bases). 
Quando remar, não afaste demais a perna que dá impulso, isso pode desequilibrar. De começo, não tente correr muito também. Se sentir que vai cair, projeta seu rosto e cabeça. Em vários sites os caras recomendam equipamentos de proteção e segurança, mas acho feio e não comprei os meus. Até hoje, já rodando bem, tentando dar meu primeiro ollie (manobra de pular com o skate) e fazendo curvas bonitonas, não caí. 

Não quer dizer que o material de segurança é dispensável, só quer dizer que sou a porra de um maluco que vai acabar mais ralado que queijo ou em coma hora ou outra. Mas heim, agora que o básico está aqui, vou falar um pouco da minha experiência andando de skate depois dos 20 anos e sobre o asfalto perfeito pra iniciantes.

DIÁRIO DE SKATE DO GAROTO COM MAIS DE 20 — PARTE 1
Comecei a andar sozinho. Na segunda semana chamei amigas, sendo que apenas uma tinha skate e por ter comprado em uma loja não especializada, ficou com um skate ruim, o que é o mesmo que não ter. Só que na quarta semana fui com meu melhor amigo e eterno jovem que já escreveu aqui no DDPP, o Begus Bezerra, comprar o longboard dele, aquele skate mais largo e comprido.
O longboard, além de muito mais estável, foi montado com maestria pelos caras da loja, por isso reforço a importância de comprar em locais especializados! Sai mais caro (custou R$ 500), só que dura muito mais e fica muito mais confortável no pé. Se possível, recomendo que mostre para seus amigos como andar num skate pode ser delicioso. A experiência de ter alguém com a mesma vontade de andar é positivamente diferente. Por quê?

Porque é legal ter com quem comentar cada segundo que conseguiu descer a ladeira perto de casa sem cair ou a primeira curva de 360º. É legal trocar de skate e apostar corridas. É legal dar as mãos e ficar inventando manobras de impulso, um puxando o outro. É legal descobrir que a quadra recém-construída do bairro pode ser o novo point de vocês toda sexta à noite.
Além de comprar no lugar certo e levar um melhor amigo, a escolha do asfalto foi importantíssima pro meu aprendizado. Sei que quando a gente pega um skate, achamos que o ideal é atravessar o bairro inteiro pela estrada como se andássemos por milênios. Calma! Recomendo definir duas coisas: o tipo de asfalto e o tamanho da pista no qual você vai percorrer para aprender, acostumar com teu bebê nos pés, aprender a fazer curvas etc.

Descobrimos, eu e o Begus, que a quadra e a calçada ao redor da praça gigante são perfeitas pra isso. Principalmente de madrugada, nosso horário lindo. Além de não ter carros nas ruas ou pessoas que possam “travar” nossa inibição, ninguém quer jogar futebol, deixando o espaço livre para até quatro skatistas aprenderem, zoarem, gravarem vídeos e tirarem fotos.
Com The Drums nos ouvidos, celular na mão, McWrap na bolsa e suor na testa, aprendi nesse dia (04/05/13) que andar de skate pode ser ainda mais divertido do que já achava enquanto sozinho. Essa coisa de vento no rosto, praia, música alternativa, fotografia analógica e vídeos despojados podem ter um sabor muito mais apurado se o melhor amigo estiver do lado.

Gravamos um videozinho, assista aí:

Como fazer camisa Batman

Tava na hora de dar continuidade aos “faça você mesmo” do DDPP! Depois de um de meus personagens favoritos dos videogames, vem o super-herói que me ensinou a ler, meu querido, amado, idolatrado morcego: Batman! Em seis passos, você pode ter uma camisa igual a essa gastando bem pouquinho! Coloque roupa velha (caso respingue tinta de tecido em você), separe materiais e vam’bora!



MATERIAIS

1. Camisa 100% algodão 2. Tintas para tecido preta e amarela 3. Moldes cortados (vou explicar já) 4. Papelão 5. Pincéis e batedor ou rolinho 6. Estilete 7. Cartolina ou chapa usada de raio-x (pro molde) 8. Fita adesiva
COMO FAZER O MOLDE
Essa técnica é chamada de stencil, onde você imprime esses dois desenhos e recorta na cartolina ou chapa de raio-x, que servirá como molde vazado por onde a tinta passará. Na elipse amarela do símbolo do Batman, é só recortar na linha pontilhada, bem fácil. Na vez do morcego em si, preciso explicar uma coisa.
O MOLDE 2 tem dois elementos: o morcego e a linha que acompanha a borda da elipse. Se você cortar essa linha da borda direto, a parte interna que tem o morcego não vai ficar presa ao molde. Para que isso não aconteça, é necessário criar essas pontes brancas que parecem falhas na linha. Dessa forma, NÃO CORTANDO SOBRE AS PONTES, o desenho do morcego continua no molde.

Corte com estilete apenas sobre as linhas pretas, chamadas de “linhas de corte”. Qualquer coisa é só olhar o passo-a-passo ou como fiz a camisa do Sonic. Baixe o MOLDE 1 e o MOLDE 2 e acerte o tamanho que você quiser na hora da impressão.
FAÇA VOCÊ MESMO

1. Coloque o pedaço de papelão por dentro da camisa, na altura da parte que receberá o desenho. O papelão impede que a tinta manche a parte de tráse dá maior estabilidade para pintar.
2. Prenda o MOLDE 1 com o auxílio da fita adesiva. 
3. Com o MOLDE 1 bem preso, pinte de amarelo com cuidado para não sujar a camisa. Espere secar um pouco e retire o molde sem pressa.
4. Posicione o MOLDE 2 se baseando na linha da borda. Prenda com fita adesiva.
5. Pinte de preto, espere secar e retire o molde.
6. Percebeu que as pontes deixaram falhas na linha preta da borda do símbolo? É só corrigir com um pincel fininho ou caneta pra tecido e pronto, tá pronta! 

Espere 3 dias para lavar, ok? Deixe-a secar longe do Sol, mas em local arejado. 
Agora vá salvar o mundo, por favor!

Estilo Xamânico ou Native

O estilo “native” (expressão vinda de como os gringos chamavam os índios nativos dos Estados Unidos) ou xamânico é caracterizado pelo uso de formas geométricas, representações de animais e símbolos que representam forças da natureza e todos os seus ciclos. Nesse post falarei de como isso se aplica na moda, na decoração e no estilo de viver. Vem que a viagem é psicodélica.
Antes de mais nada, não adianta se encher do grafismo desse estilo se em sua vida você não tem o menor respeito pela natureza. Entender que as forças dela são maiores que as dos homens e que todos os seres vivos que compartilham a Terra se unem por teias invisíveis, é personificar nesse estilo uma verdade.
Não precisa se tornar xamã, mas acredito que se você se encher de coisas do tipo e jogar latinha de refrigerante pela janela do carro ou chutar seu cachorrinho só vai te transformar num poser. E não tem nada pior do que um poser, que é uma pessoa que diz ser algo pra impressionar as pessoas quando, na verdade, é outra, muito mais patética. 
O ESTILO DE VIDA
Xamãs são identificados por seus conhecimentos de cura, dos processos naturais e, principalmente, por seus poderes de pegar “emprestado” as capacidades dos filhos da natureza, entre eles animais e eventos climáticos. Muitas vertentes de “bruxaria moderna” se aproveitam da veia xamânica pra acessar energias selvagens das quais nós, habitantes de cidades, perdemos com o passar dos séculos.

Independente do lado místico acerca dessa figura, o xamã é um grande sábio, um índio que por tradução literal “enxerga no escuro”. É uma pessoa que se enxerga como parte de um ciclo gigantesco onde toda ação gera reação. Sendo assim, é muito cuidadoso e reflexivo antes de tomar qualquer atitude. 
NA MODA
O estilo native american se assemelha muito com o estilo hippie, com peças leves e com cara de “gente que ama a paz”, diferenciado por estampas geométricas e tribais em tons de coloridos sóbrios ou de diferentes tons de marrom. Bolsas de couro (sintético, por favor) com babadinhos sobrepostos, sandálias, headbands de palha e muitas, muitas penas! Isso sem falar nas estampas de corujas, lobos, veados, búfalos, águias, ursos e blá, blá, blá! Casa bem pra quem curte uma pegada mais rocker também.

Outro acessório que não chega a montar um look pra andar na rua, mas que fica muito legal numa social com essa temática (vou dar dicas pra uma festa desse tipo depois que ensinar como fazer uma tenda) é o cocar, ou o indian headdress. É difícil de achar pronto, sai caro e geralmente colocam na parede pra decorar. Existem variações de cocares pra cada região, mas a dita nesse post segue o estilo “clássico” mostrado abaixo:

NA DECORAÇÃO
Apanhadores de sonhos, imagens de lobos, crânios de animais que morreram de forma natural, cangas penduradas no teto, móveis em madeira rústica, totens com a mesma proposta de uma carranca brasileira (pra afastar maus espíritos) e, meu objeto favorito e sonho de consumo, uma tee pee, a famosa tenda indígena afunilada pra cima.

TATUAGENS
Uma observação importante é que o estilo gráfico asteca se confunde bastante com as geometrias xamânicas. Por isso, garimpe lojas de vendedores chilenos, sempre tem coisa legal pra decorar ou vestir, incluindo bolsas geralmente num bom preço, pois são produtos artesanais (até baratos, se quer saber).
Aqui deixo tatuagens pra apresentar esses estilos gráficos muito semelhantes, que casam muito bem.

Domingo vou postar uma trilha sonora inspiradora, pra que você entre nesse universo de cabeça. Independente de gostar ou não do estilo, seria legal praticar a filosofia do respeito, então comece respeitando o espaço em que você vive: nada de lixo na rua, nada de crueldade com os outros! 
Toda ação gera reação. Tudo que você faz, volta pra você.

Somos viciados em dramas?

Quando as coisas estão difíceis, a gente reza para que tenha alguém acima das nuvens pra livrar nossos caminhos de pedras, pedimos milagres e simplificações pra facilitar a vida. Só que quando temos tudo na mão, sem um problema sequer, reclamamos da falta de adrenalina, do tédio. Por que não podemos aceitar o que vier como desafios e menos como roteiros de filmes?

Suspeitamos do que vem fácil porque o ditado sempre disse que quando vêm desse jeito, costumam ir embora facilmente também. Será que é daí que vem o costume de querer complicar tudo pra termos a sensação de que valeu a pena o sacrifício, alguns litros de lágrimas e a quase destruição de nosso emocional — e paciência de quem nos cerca?

Sempre fui a drama queen dos amigos. Se chamavam pra balada, reclamava do porquê de não quererem passar a noite de sábado comigo sabendo que eu não aceitaria sair. Se não chamavam, ficava puto internamente por não terem cogitado minha participação na noite de sodomia. “Você não ia querer”, respondiam eles. Verdade. Provavelmente ficaria em casa. Mas não é educado apenas perguntar?
Motivos para gerar dramas variam de não deixarem a última bala do pacote ou o relacionamento onde tudo acontece sem complicações. Em casa a gente vê isso: quando os pais são liberais, reclamamos de não se importarem conosco, filhos. Quando são protetores, reclamamos da falta de liberdade, batemos o pé, fazemos bico e achamos que ouvir System of a Down vai resolver alguma coisa.
Ou simplesmente irritar a vizinhança inteira.

Aí entra a parte do vício e/ou costume de querer o mundo mais difícil, talvez pra buscar a boa sensação de um suspiro de alívio depois de um monte de tormento. Uma desculpa para nos fazermos achar que merecemos o sorriso, já que sofremos tanto. É nosso complexo de novela mexicana, de que depois de tanto sofrer — mesmo que produzido por nós mesmos — merecemos recompensas.
Quando encontramos alguém que diz que ama, que liga perguntando como estamos e que adora e é adorado pelos amigos, procuramos alguma coisa pra reclamar: quilinhos a mais ou, a menos, academia demais, pouca inteligência ou muito mais esperteza, por pagar toda a conta da lanchonete ou por levar pra faculdade de carro todos os dias. Aí caímos fora por medo do tédio.

Quando é alguém que não fala que ama ou prefere sair com várias pessoas ao mesmo tempo, reclamamos da falta de carinho, por não abraçar o suficiente, por não ligar tantas vezes quanto deveria e blá, blá, blá, blá, blá. E ficamos presos nesse relacionamento até arrancar pedaço, até quase morrermos de hemorragia de autorrespeito. Só então prometemos: “vou arranjar quem me ame de verdade”
E fazemos tudo de novo.

Dramas podem ser saudáveis numa briguinha aqui e ali pra nos darmos conta do valor da paz, assim como a tristeza nos mostra como é muito melhor sermos felizes. A mistura ruim fica por conta do drama + autossabotagem, quando a gente tem problema com nós mesmos e construímos desculpas para deitar na cama e esperar um messias.
Vai, pode admitir: sem drama, a vida não fica com cara de série de TV. E se não parece com série de TV, achamos que a vida está errada, que não é real. É aí que podemos morrer esperando o roteiro que nunca vai chegar na caixinha do correio.

1º de abril: dia da mentira ou verdades?

Não que seja ranzinza ou mal-humorado (apesar de ser os dois de forma crônica), mas aguentar mentirinhas de 1º de abril é pra quem tem sangue forte. O que gosto nessa data sem motivo de existir além das baboseiras culturais que tentam explicá-la, é como usam mentiras pra falar verdades e, quando o resultado não é esperado, tornam as verdades puras mentiras. Confundiu?

Ano passado, um “amigo” veio se declarar pra mim via Facebook. Amigo hétero, diga-se de passagem. Falou que não conseguia viver sem minha amizade, que era muito importante e que tinha muita curiosidade de me beijar, que se fosse fazer isso com um cara, gostaria que eu fosse o primeiro. Quando terminou, perguntou o que eu achava daquilo, se ele tinha chance.

Por que eu diria “não” pra um cara lindo e que se declarou numa bíblia quase escorrendo caracteres por falta de espaço da tela da inbox? Disse que sim, que tinha chances, que sempre o achei atraente, mas que entendia sua orientação sexual e que respeitaria nossa amizade acima de qualquer coisa. E, claro, disse que me sentiria muito honrado em tirar o BVM (Boca Virgem Masculina) dele. 
Óbvio.
Do mesmo tamanho que veio a mensagem inicial do moleque, veio a quantidade de “KKKKKKKKK” logo depois de eu ter teclado enviar. “TÔ BRINCANDO”, exclamou ele com o Caps Lock ligado, “É 1º DE ABRIL! KKKKKKKK”. Deus, como sou grato por termos evoluído dos neandertais parar podermos criar o monitor, porque aqui na minha cadeira, eu tava com a cara mais no chão do que a Jennifer Lawrence no Oscar.

Como pude esquecer?! Era 1º de abril, poxa! Por que diabos essas pessoas faziam isso, de inventar mentiras apenas pra nos deixar desconfortáveis a níveis como esse?! Já não bastavam as mentiras que tínhamos de enfrentar (e até criar) no dia-a-dia? 
Me veio à mente que talvez fosse uma forma de aliviar uma verdade. No caso dele, não seria possível que o texto gigantesco fosse um “desabafo oficial não-oficial” sobre como se sentia em relação a mim, uma paixonite proibida? Porque o texto foi grande e bem sincero! Até ele desmentir… Tendo o poder de falar a verdade através de uma mentira apenas pra tirar o peso das costas e depois cobrir com outra mentira que anularia qualquer verdade, o 1º de abril se tornaria então O Dia das Verdades?
Pode ser, não tenho certeza. O que sei é que quiquei meus dedos no teclado ― com mais violência do que geralmente tenho quando o espanco ― e mandei um “KKKKKKKKKK EU TAMBÉM TE ZOEI, BURRO! FELIZ 1º DE ABRIL! KKKKKK”
Assim, mascarei minha verdade com uma mentira.
Te desejo muita paciência nesse “feliz dia 1º de abril”.

Pensamento mágico empreendedor

Lembra daquela sensação forte que temos quando estamos muito alegres, de que podemos mudar muitas coisas em nós mesmos e no mundo em que vivemos? Esse é o estado de espírito que gera a fagulha do pensamento mágico empreendedor que move o mundo.

Costumo dizer que o empreendedor deve ter peito de aço para ser capaz de manter esse pensamento mágico vivo em si diante de diferentes níveis de agruras e adversidades, sem perder o intento em seu objetivo maior. Ir além do “sim” e do “não” e do “agora não posso pois estou ocupado”, sabendo que não há nada mais importante e vital para se ocupar. Ir além do sucesso e do fracasso, da fama e da corrida insana pelos resultados e pelo dinheiro. O empreendedor criativo deve simplesmente ter um objetivo maior para poder suportar e se destacar em seu meio.

Esse objetivo maior deve estar ligado à sua ideia de mundo e sua visão de melhoria a médio e longo prazo. A gana em ganhar muito dinheiro poderá movê-lo por um bom tempo e poderá leva-lo a bons lugares, mas a força interna que surge de um legítimo objetivo será seu único guia para tomar  as decisões mais importantes e saber qual é o caminho mais inteligente e principalmente para ter coragem e certeza que de ter muito, mas muuuito mais possibilidades do que seus possíveis competidores, sejam elas StartUps ou Mega Corporações. O empreendedor criativo ganha ímpeto e força ilimitada apenas com seu trabalho e sua convicção.

Não quero ser romântico nem idealizar a imagem de um super herói dos negócios, pessoas que transcendem sua realidade. Sabemos que nada disso existe e que todos esses prodígios são realizados por pessoas comuns que resolvem aventurar-se em novíssimas frentes por sentirem-se insatisfeitas com o cenário atual e acreditarem que podem e devem, mantendo acesa em si a chama do novo, seguindo com bravura a estrada do pensamento mágico.

Mas afinal, em que consiste esse tal pensamento mágico empreendedor? Trata-se justamente de fazer tudo o que a sociedade menos valoriza: ser livre. Liberar a própria mente para o fluxo de ideias e insights que o universo nos proporciona em abundância, mas que estamos fritando as pestanas demais na frente do computador para captá-las. Significa seguir com responsabilidade nossos instintos infantis na forma de brincar com realidades e conceitos, o  brincar despreocupado e criativo com as possibilidades e realidades, libertando-se de  barreiras culturais e impedimentos lógicos.

aprenda aqui oportunidade de trabalhar em casa

Não somos mais crianças, pois temos uma bagagem cultural e social intensa que adquirimos por imitação dos demais. Isso não quer dizer que perdemos totalmente nosso pensamento mágico e brincante, podemos sim recuperar essa fundamental ferramenta para a evolução de  nós outros e  para o avanço como humanidade. Somos tão sensacionais como humanos que podemos estudar demais um assunto pesquisando profundamente e depois largarmos de lado toda aquela informação. Nosso cérebro é maravilhosamente preparado para processar e criar novas conexões com todo esse conhecimento e, acredite,  essa máquina neural é tão sofisticada que pode processar sozinha esses conteúdos e gerar novas ideias de excelência. Sem grande esforço, para percebermos essas ideias é preciso nos libertarmos do condicionamento de nossa mente consciente, muitas vezes isso acontece em um momento de distração ou de descontração. Essa é a origem das grandes ideias, caem em nosso colo constantemente como sinais prontas para serem vividas e alimentadas.

Esses grandes insights e ideias inovadoras não surgem “do nada”, elas advém  justamente de nosso poder intenso de processamento revelada em nosso ócio criativo. É bem verdade que nosso cotidiano é repleto de pressões externas que influem e matam esse fluxo, revelando-se em forma de acontecimentos, afazeres intermináveis, preocupações e responsabilidades, capazes de travar ou inutilizar esse poder abstrato. Abafamos ainda por livre e espontânea vontade o que nos é mais valioso, para depois culparmos a sociedade (da qual somos sócios) e à cultura atual. Simplesmente somos nós os verdadeiros culpados por aceitarmos essa quebra do fluxo do pensamento mágico, assim como somos também os responsáveis únicos em recuperar este poder miraculoso.

Mais importante que o pensamento mágico é sem dúvida nenhuma colocá-lo em prática, o FAZER. É justamente esse fator que difere o empreendedor dos viajantes cheios de ideias intangíveis à realidade. Mirabolantes e com enorme potencial, todos nós temos ideias advindas do pensamento mágico empreendedor pelo menos uma vez em nossas vidas e não raro tem muita relação com nossos objetivos mais enraízados, pessoais e as vezes até espirituais. Mas vincular a iniciativa com a persistência e acabativa é o que traz o resultado e toda a diferença, que e as vezes nos falta e que diferencia por completo um fluxo de IDEIAS  criativas do fluxo de REALIDADES alternativas.

Nessa questão milhares de projetos que poderiam trazer contribuições, tanto pessoais como comunitárias, morrem no lodo da inação, descrença e desânimo Por isso o maior desafio do empreendedor da economia criativa é justamente acreditar em suas abstrações a ponto de banca-las em seu presente, simplificando sua execução e arregaçando as mangas para fazer de seus sonhos, realidade.  Quando temos ideias sensacionais e verdadeiras e não as realizamos criamos em nós um grande vácuo existencial, mas mesmo o fato de guardá-las a sete chaves para nós mesmos não irá impedir com que outras pessoas às percebam e às realizem. É incrível, mas em pouco tempo outra pessoa acaba tendo essa mesma ideia a realizando-a, deixando-nos pasmos, desconfiados e até mesmo nos sentindo roubados.  É como se as ideias estivessem pairassem no ar, prontas para quem tiver o pensamento mágico captá-las e  garra para realiza-las. Nada mais justo.

Ainda mais importante no processo de concepção de uma hipótese de mercado será a vivência efetiva dessa ideias na prática mercadológica. Da validação das propostas com clientes reais, potenciais usuários e beneficiários surgirão os principais conselhos, críticas e principalmente os caminhos a serem percorridos para dar continuidade e fluidez ao processo de criação, sendo ao mesmo tempo prova de fogo do pensamento mágico empreendedor inicial e alicerce para seu desenvolvimento primordial como negócio, com resultados tangíveis e previamente validados quanto utilidade, escalabilidade e lucratividade expressiva.

Antes de ver uma televisão funcionando ninguém e sã consciência poderia imaginar que um objeto poderia transcender o mundo físico naquele nível, levando ao ar acontecimentos e situações, imagens, sons de diversos lugares distintos passando de forma mágica e instantânea.  Apenas um projeto executivo, documentações ou desenhos técnicos não seriam capazes de convencer as pessoas, mas o fato de haver uma televisão funcionando é inquestionável e real, ela existe. Daí a impressão cotidiana que aquele objeto sempre existiu e esteve ali, como se fosse uma inspiração dos Deuses realizada pelos humanos. Podemos dizer que a sensação procede, mas na verdade para aquele objeto estar ali disponível para nosso uso, foi preciso que alguém realizasse o pensamento mágico empreendedor, para trazer aquela invenção do mundo abstrato das ideias para o mundo real, físico, tátil e simbólico.

É muito natural e até bom que as pessoas estranhem quando acreditamos, bancamos e realizamos nosso pensamento mágico empreendedor com firmeza levando isso em nossas vidas até as últimas consequências. Em geral perdemos nossos referenciais sobre esse maravilhoso processo pois estamos presos no conforto e nas facilidades das soluções simples dos outros, que podem ser sensacionais mas nos deixaram paralíticos ou robotizados frente à nossa verdadeira essência. No fundo sabemos que não estamos distantes o bastante desse pensamento pois somos capazes de detectar essa linha de pensamento nos objetos, nas realizações alheias mas principalmente em nossas próprias ideias sensacionais. Reconhecemos essa riqueza mas ainda assim insistimos em cortar o fluxo em nós mesmos, talvez por uma longa preguiça existencial. Isso nos causa grande pressão, digna de um Big Bang , e daquele grande descontentamento e sensação de impotência perante ao mundo,  começam a surgir faíscas que acabam por causar a grande explosão do pensamento mágico empreendedor. Isso pode acontecer com pessoas que vivem uma vida de estabilidade e regalias com cargos de respeito, igualmente com pessoas desempregadas e sem uma atividade profissional definida. Deriva mais comumente de um ímpeto pessoal e íntimo das pessoas para com a sociedade e imdependem de classe ou personas sociais.

Não importa se dentro de uma empresa, criando um novo negócio ou StartUp ou realizando um grande sonho que exigirá  mudança brusca. Manter nosso pensamento mágico empreendedor é o caminho para encontrarmos sentido, sabermos de fato quem somos identificado àquilo que fazemos. É como acordar do sono profundo de conformismo, renascendo para uma realização pessoal intransferível.

Para isso é preciso muita coragem e persistência, pois o dia-a-dia é real e traz problemas e questões que nos testarão das formas mais extremas e variadas em seus pontos fracos e vulnerabilidades que por vezes abafam o fogo de palha inicial. Desafios e impedimentos agem como filtros de resistência para as grandes ideias e são como pequenas agulhas que insistem em nos perfurar e que com o tempo aprendemos a trabalhar, chegando ao ponto ideal de tirar forças das adversidades desse jogo de acupuntura. Nessa hora fica mais nítida a importância e o valor da força dos nossos sonhos, pois será precioso que sejam esse impulsos íntimos, elevados, relevantes e reais o bastante para você.

Para realizar o pensamento mágico empreendedor e ter sucesso nesse empreendimento criativo, mais importante ainda que dinheiro ou o tão valorizado e ilusório “sucesso”, o empreendedor criativo se valerá de seu ímpeto criativo e terá como base seu ideal sonhador inicial, desenvolvido pelos clientes em proposta de valor conveniente e inovadora. É a realização não apenas de desejos e anseios pessoais, pois reflete o pensamento mágico de toda uma geração dando-lhe forma, cor, função e existência.
Mais que um negócio próspero, é um legado de inteligência e percepção humana a serviço de seus iguais.

Legado Oscar Niemeyer: As curvas empreendedoras

A gente nunca imagina que vai ver certas coisas acontecerem. Mas a vida é implacável. Curta e dura – como diria Oscar Niemeyer, que morreu dia 05/12, aos incríveis 104 anos de genialidade, criatividade e empreendedorismo.

Empreendedorismo?

Sim. Taí um cara que empreendeu a vida toda. Iniciando, aprendendo, ousando, errando e acertando. E por isso e por como sucedeu-se seu processo, podemos falar que ele é um dos maiores brasileiros de todos os tempos.

Muitas vezes as pessoas acham que empreender é montar um negócio, fazer umas vendas, valorizar “o passe”, vender o negócio ou sustentá-lo por anos e perecer – o que é a única certeza deste processo tortuoso e divertido que chamamos de vida – com algum dinheiro no bolso para nossas despesas e de possíveis herdeiros.

Vou chamar o Niemeyer para nos ajudar a, de uma vez por todas, mudar esta perspectiva. E ele vai nos ajudar bater uma tecla que eu disse no meu primeiro post aqui no blog.

Legado Oscar Niemeyer

Vamos nessa?

Niemeyer teve uma vida boêmia em plena Belle Époque carioca, rodeado por mulheres e pelo efervecente cenário do samba carioca na década de 20. Isso vai influenciá-lo anos mais tarde, mas aguardem algumas linhas para isso… rs.

Traço de Niemeyer ao descrever sua primeira residência, no bairro das Laranjeiras (RJ).

Ele começa a trilhar sua trajetória em 1929 ao entrar para a Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro (dirigida por Lúcio Costa e influenciada claramente pelo pensamento e artistas modernistas vindos de São Paulo) , saindo dela formado em Arquitetura e Engenharia. Idealista e comunista – feitos que vão perpetrar sua trajetória – sente-se incomodado com o desenho vigente da arquitetura local. Vê no escritório do diretor da faculdade a oportunidade de experimentar as novas perspectivas em mente e aceita trabalhar de graça, mesmo passando dificuldades financeiras.

Niemeyer e Costa: uma relação de aluno-diretor e chefe nos tempos de faculdade e escritório no RJ que subiu à alcunha de parceiros na construção de Brasília.

Pausa: O que isso tem a ver com o mundo empreendedor? TUDO!

Vejam só: ele tinha uma visão clara do que queria, talvez ainda sem uma missão, mas ele sabia o que queria. E seu ideal ia muito além de ganhar dinheiro. Se este fosse o caso, iria explorar o mercado vigente neocolonial ou o art déco… Foi atrás da sua visão, mesmo sabendo que a curva de ganhos poderia ser árdua.

Play: Continuando.

Os anos se passam e nota-se mais um elemento que influencia a trajetória de Niemeyer: Le Courbusier, arquiteto de vanguarda franco-suíço que, entre outros pontos, pontuava sua criação pelos vãos livres em suas obras, o que permitiria livre circulação de pessoas quando falamos do piso térreo e da plena abertura de janelas quando falamos de edificações. Assim ele, Lúcio Costa e o estagiário Niemeyer, com outros parceiros (Portinari incluso), constroem, em 1939 a serviço de Getúlio Vargas o prédio do MEC no centro do Rio – considerada a primeira obra de arquitetura moderna no país. E que colocou o Brasil em posição de vanguarda mundial uma vez que muitas nações estava colocando suas cabeças mais brilhantes a serviço da II Guerra Mundial (para um empreendedor, leia-se oportunidade de mercado).

Prédio do MEC e o seu vão com obra de Portinari em azulejos ao fundo.

Mas lembrem-se: Niemeyer é um sujeito idealista. Comunista. E que tinha fascinação por curvas – Rio de Janeiro e mulheres inclusas.

Conhece Juscelino Kubitschek (JK) em 1940 e recebe a incumbência de construir edificações para uma parte da cidade a ser habitada – a Pampulha. Sua obra mais categória, A Igreja marca o pontapé da sua proposta seminal de trabalho, composta por retas e curvas com base no concreto armado. Ou como ele disse décadas depois: “Com a obra da Pampulha o vocabulário plástico da minha arquitetura, num jogo inesperado de retas e curvas, começou a se definir.”

Marco inicial: igreja Pampulha.

Sua proposta choca e destaca-se o suficiente para, em 1947, ter o seu projeto aprovado para a construção do prédio-sede da ONU em Nova Iorque, com o “mestre” Le Corbusier como parceiro. E, dez anos depois, chamado por JK para o ousado plano de uma capital no centro do país, lidera o processo que traz em Lúcio Costa o plano-piloto de Brasília, ao qual Oscar pincela obras como o Palácio do Planalto, o Palácio da Alvorada, a Esplanada dos Ministérios e outras edificações. Todas repletas de curvas, retas, vãos livres, plena visualização e acesso público.

Esta foto não é da semana passada; tem a idade da minha mãe (!) Niemeyer verificando as obras de Brasília com o Palácio do Planalto em construção atrás.

PAUSA.

Empreendedor, o que você vê aqui que falamos ao longo do ano?

– Reforço da sua visão de uma arquitetura moderna e inventiva;

– Criação de uma missão, composta por sua arquitetura poética, repleta de curvas, retas e as influências. REPERTÓRIO!

– O escoreamento em tutores, como Lúcio Costa e Le Courbisier, e a posterior suplantação deles. + REPERTÓRIO.

– O início em pequenos passos pouco remunerados (Lean Startup?), mas que valida suas crenças e hipóteses (Customer Development?)

Vamos soltar o play de novo. Não vou me estender muito.

Podemos dizer que após Brasília, sua obra-prima, finalmente temos um Oscar Niemeyer arquiteto-empreendedor de grande porte. Precisa reinventar-se como profissional (Business Model? Canvas?) após seu comunismo custar-lhe a estadia e o trabalho no Brasil, e sai projetando na Europa e África (dois Oceanos Azuis aonde havia somente construções seculares e/ou nada?) – destaque para a Argélia pautada em ideais socialistas em pleno final dos anos 60. Volta ao Brasil na década de 80 consagrado e constrói o MAC de Niterói, os Museus que levam o seu nome na mesma cidade e em Curitiba, o Edifício Administrativo Tancredo Neves em BH, entre outras obras no Brasil e no Exterior.

E trabalhou até horas antes de morrer. Não deitou eternamente em berço esplêndido, foi à luta e foi combativo até o fim – como um bom comunista. Mesmo em seu leito final, não discutia o fim de sua trajetória, mas o início dos projetos que seu escritório estava realizando.

Aos 102 anos, apresentando o projeto de seu museu na Espanha.

No fim resumiria a trajetória de Niemeyer e o porquê dele ser um dos maiores brasileiros de todos os tempos em duas falas que resumem, não por coincidência, muito do que um empreendedor leva como modelo mental:

“A vida humana é muito pequena e muito dura e é preciso não desistir dos ideais, pelas mudanças políticas e sociais necessárias. Por isso, temos ainda um longo tempo de luta pela frente”

“Digo aos recém-formados que não basta estudar na escola. Tem que conhecer a vida, os problemas, a miséria e estar pronto a participar, a compreender a vida

Como brinde, seguem dois vídeos: um resumo do DOC “A vida é um sopro” com muitas das crenças dele, e o comercial que a Braskem fez com seu poema (sim ele era poeta – lembram-se do repertório?) e sua obra – o troféu do GP Brasil de F1 feito em plástico de cana-de-açúcar (tenho uma réplica em casa, o que hoje me deixa orgulhoso rs).

Morre o homem. Fica o legado. Nasce o mito. Boa eternidade a Oscar Niemeyer e boas retas e curvas pra vocês!!!

O que fica é eterno.

Tendências para 20XX e o que isso tem a ver com o seu planejamento

Estamos naquela época do ano de novo. Não falo do natal ou do ano novo, mas sim do meu aniversário do período em que empresas, agências e consultores sentam-se juntos para traçarem suas estratégias do ano seguinte. É um momento fundamental de estruturação das ações que, hipoteticamente, serão responsáveis por levar a empresa a cumprir com a sua missão e concretizar sua visão. De preferência superando a concorrência e gerando o máximo de lucro no processo, claro.

Planejando o próximo ano. Não que isso vá dar certo.

Empreender

É também um momento frustrante, pois planejamos na tentativa de antever oportunidades e ameaças mesmo sabendo que nem todas elas acontecerão exatamente como foram previstas. A inevitabilidade desse fracasso faz parte, e só aumenta a importância do exercício de planejar. No entanto, em uma era de tanta competitividade e overdose de informação ficamos ansiosos para nos mantermos à frente da curva, e esse sentimento alimenta a demanda por um ciclo de artigos, pesquisas e posts que se repetem continuamente apontando “as tendências para o próximo ano”. Ou seja, em nosso exercício “Sísifico” de tentar identificar oportunidades futuras, nos tornamos oportunidade para outros – que certamente agem pautados em interesses próprios. É irônico, talvez poético, ou trágico, dependendo de qual extremo você se encontra. Pior ainda. Como não somos capazes de visualizar o futuro, não temos capacidade de determinar quais destas “tendências” apontadas em pesquisas irão se concretizar de fato ou não, certo?

Errado!

Antes de se empolgar tentando implantar todas as tendências apontadas em pesquisas de terceiros no seu próximo planejamento, observe alguns detalhes.

1. Contexto

Toda pesquisa é realizada dentro de um contexto e este impacta diretamente nos resultados. Falar de mobilidade nos EUA é completamente diferente de falar do mesmo tema no Brasil. No primeiro os smartphones já possuem uma base de usuários consolidada e redes 4G/LTE avançam rapidamente, enquanto no segundo há uma predominância dos chamados featurephones e 4G sequer foi implantada ainda. Ou seja, investir em apps robustos que requerem conexão de alta velocidade faz total sentido no primeiro, ao passo que no segundo um web App simplificado tem potencial para atingir uma maior base de usuários.

Mas mais do que olhar contextos amplos, é nosso dever pensar as tendências aplicadas no contexto do público especifico que queremos atingir.

Voltando ao exemplo da estratégia mobile, observei recentemente no Analytics de um cliente que 20% dos acessos são de usuários do iOS, perdendo apenas para o Windows, e em terceiro lugar vem o Android com 12%. Em outras palavras, 1/3 da audiência é usuária de smartphone. Para ele o contexto certamente é diferente do geral e talvez já nos caiba pensar em mobile como tendência para o ano que vem. No entanto, também tenho clientes cujos acessos via mobile correspondem a menos de 10% do total, tratando-se de um público mais velho que acessa a internet de um desktop no trabalho principalmente. Nesse contexto ainda não é preciso fazer um investimento dedicado em mobile. Ainda.

2. Cuidado com a hype

Às vezes perseguimos tão cegamente a última novidade a fim de obter vantagem competitiva que esquecemos de detalhes fundamentais.

Ao longo de todo o meu curso de Administração ouvi diversas “histórias de terror” acerca de implantações mal-sucedidas de sistemas de ERP, mas todas elas tinham um ponto em comum: a empresa, na ânsia por estar dentro das ‘tendências’, esquecia de envolver toda a organização no processo de avanço. As chances dessa atitude gerar deficiências e custos desnecessários no futuro são grandes.

Imagine a situação: você acredita que a empresa precisa implantar o uso de Social CRM, pois várias pesquisas apontam a sua consolidação como tendência. A empresa resolve bancar a ideia, mas ninguém do atendimento é treinado para saber como usar aquilo. Pior. Não basta conhecer tecnicamente a ferramenta, é preciso entender as vantagens do seu uso e no que ela contribui para o trabalho de quem operacionaliza e para a organização como um todo. Essa última parte parece ser o erro mais recorrente na implementação de novas tecnologias tidas como ‘tendência’. O problema que isso gera são profissionais subutilizando um recurso e por vezes desmotivados, incomodados com o fato de terem que se adaptar a uma nova rotina de trabalho “por nada”. Na hora de pensar em novas tendências para a sua estratégia, o profissional que está na ponta da operação deve ser levado em consideração tanto quanto quem está no topo.

Cada um na sua hype.

3. Monitore e repense

Tendências não surgem de uma hora pra outra no final do ano, tendências são construídas ao longo de meses/anos a partir da busca por novos padrões e difusão dos mesmos dentro de um determinado contexto. Parece difícil de entender? Nem tanto. Como apontei no item 1, a partir de um monitoramento realizado no Analytics pude detectar uma tendência para o ano posterior antes de qualquer pesquisa de fim de ano me dizer – ou não, como no caso do cliente com menos de 10% de acesso mobile. Meses atrás já havíamos otimizado o site para mobile e, a partir dos números mais recentes, já estamos discutindo alguns ajustes mais profundos. Isso me leva a outro ponto: a estratégia não pode ser algo engessado.

Tenha ações, metas e prazos bem definidos, mas não caia no erro de tornar o monitoramento apenas mais um relatório de rotina. Ele deve servir para impactar a estratégia ao longo da sua implementação, balizando-a conforme os resultados verificados até então. Reuniões periódicas são fundamentais para que isso aconteça e todos estejam cientes, reagindo e se antecipando de acordo.

Fazendo esse dever de casa, você perceberá que seu desespero diante do ciclo anual de pesquisas de “tendências para o próximo ano” é completamente desnecessário.

Não estou dizendo que estes estudos são fajutos ou que eles não tem importância, muito pelo contrário. Quando bem fundamentados, são instrumentos essenciais para entendermos o contexto geral antes de partirmos para uma reflexão acerca do nosso caso específico.

Na verdade o que estou querendo dizer é que, se a sua organização pratica o ato de monitorar e repensar sua estratégia continuamente, observa o contexto em que está inserida e olha para a implantação de novos processos de maneira ampla visando todos os envolvidos, o que é tido como “tendência” não passa de uma evolução natural.